O iminente desaparecimento do Clube Alagoinhas

Pensando em um texto para o blog Sociedade Movimento, um trecho de uma música não me saia da cabeça. Ecoava em mim o refrão da música “Cidades” de Nação Zumbi: “A cidade não pára, a cidade só cresce”.

Embalada pela canção reinvidicadora comecei a pensar nas forças propulsoras do crescimento da cidade, nos atores envolvidos neste processo e nos efeitos espaciais provocados por suas ações.

Inevitavelmente, não pude deixar de refletir sobre o lugar do patrimônio cultural em meio ao movimento ininterrupto de evolução e mudança inerente à própria condição de ser cidade.  Como proteger os bens patrimoniais –  sejam eles ambientais, artísticos, paisagísticos ou históricos – neste contexto?

Trazendo esta discussão para Maceió, vários exemplos saltam aos olhos. Me deterei a apenas um deles: o iminente desaparecimento do Clube Alagoinhas.

Alagoas Iate Clube. Foto: Alice Jardim

O Alagoas Iate Clube, mais conhecido pela população como Alagoinhas, é de autoria da arquiteta Zélia Maia Nobre, em parceria com a arquiteta Edy Marrêta, sendo – de acordo com o Livro Arquitetura Moderna: a atitude Alagoana, de Maria Angélica da Silva – projeto vencedor de um concurso e construído na década de 1960. Sua arquitetura, é representante do Movimento Moderno alagoano e tornou-se importante marco visual para a Maceió. A localização privilegiada, na orla da cidade, fez com que a construção fosse incorporada à imagética da praia de Ponta Verde, ao passo em que se tornou alvo de contestação por ter sido construído em área de preservação ambiental, pertencente à União.

Com o passar dos anos a obra tornou-se referencial de identidade para o lugar onde foi inserida, sendo instituída de significações culturais pela população. Atrevo-me a dizer, mais baseada em vivências e memórias pessoais enquanto moradora maceioense do que em pesquisas científicas, que a edificação teve seu status elevado à condição de bem cultural. A arquitetura havia se transformado em testemunha edificada e comunicava à sociedade uma parte da história da cidade.

No entanto, ignorando qualquer valorização cultural do bem edificado, em 2006, um decisão judicial expediu ordem de demolir parte da area do clube com previsão de demolição posterior de sua totalidade. A completude do ato não se concretizou e o clube incorreu em um estado progressivo de abandono e degradação física, até que, recentemente, foi anunciado um acordo político firmado para transformar o antigo Alagoinhas em um Centro Turístico para a cidade. O novo projeto, que segundo a reportagem já possui verba garantida, está situado exatamente no lugar do clube, sem recuperar ou aproveitar parte alguma da edificação original. À parte de qualquer discussão de legalidade da construção em local outrora reivindicado como área de proteção ambiental, não houve menção à importância histórico-cultural do antigo clube ou consulta à população para a decisão quanto ao novo uso do lugar. Não pretendo discutir aqui o mérito do novo projeto, a questão fundamental é: quando o patrimônio edificado de Maceió assumirá o lugar que lhe é de direito? De bens que são protegidos, valorizados e inseridos na dinâmica da cidade e não deixados à parte, até que o tempo os reneguem ao esquecimento e permitam a sua total exclusão do espaço construído.

Giddens, em seus estudos sobre a Modernidade, afirma que as relações de identidade e a tradição, são requisitos de segurança emocional e garantem a integridade do “eu”, do indivíduo.

Sim, a cidade não pára, e a preservação, longe de ser um empecilho ao seu crescimento, torna-se fundamental para que o sujeito construa referenciais no espaço em que habita e passe a reconhecer-se enquanto agente participante dele e por ele responsável.

Vanine Borges

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Uma sonhadora que procura fazer da realidade um lugar mais interessante e prazeroso.

16 responses to “O iminente desaparecimento do Clube Alagoinhas”

  1. Álvaro Farias says :

    Olá Vanine, muito bom o texto, mas você esquece do processo de urbanização que se dá ao longo da cidade, o bairro da Santa Amélia, sofre todos os dias com a diminuição das áreas verdes, para dar lugar ao mar de prédios, o Supermercado GBarbosa construído no bairro, foi construído ao longo das margens do Parque Municipal de Maceió, coisa que pouca gente sabe, mas a borda do Tabuleiro é área de essencial proteção, tendo em vista a sua inclinação e a suscetibilidade à dinâmica de massas. Outro ponto que você esqueceu de mencionar, é o processo de ocupação que se deu no Bairro da Santa Lúcia, onde mais uma vez o papel dos agentes dinamizadores do espaço urbano entram em ação, desta vez as empreiteiras, mas de fato quem se importa mesmo? Cidade pra quem? Agora a Orla? Claro, vamos ocupar! Está na moda! Esqueçamos todos estes outros bairros, periferia não tem valor!

    • Vanine Tips says :

      Olá Álvaro, obrigada pelo seu comentário. Esse texto tem como foco sim o caso do Alagoinhas, do ponto de vista preservacionista, e de modo algum pretende englobar todo o processo de urbanização de Maceió. É claro que existem diversos outros exemplos de ocupação desordenada e sem planejamento, como você bem mencionou. E esse espaço tem como objetivo levantar tais discussões para que possamos pensar melhor a cidade que habitamos.
      Um bom grupo para discutir e buscar alternativas é o Direitos Urbanos – https://www.facebook.com/groups/direitosurbanosmaceio/ , além do agora site http://sociedademovimento.com – coordenado pelo arquiteto e urbanista Renan Silva.
      Dá uma olhada lá e continue participando!
      Abraços

  2. Rose Francino says :

    Estou fazendo um estudo sobre o clube, para a minha conclusão do Curso de Arquitetura e Urbanismo, no qual a minha proposta seria uma reforma do local, preservando as características e dando um novo uso.
    Gostaria de saber se vocês da família Alagoinha, possuem alguma foto da construção, ou até mesmo o projeto original.

    • Vanine Tips says :

      Olá Rose,
      você pode encontrar mais informações sobre o projeto no livro: Arquitetura Moderna: a atitude Alagoana, de Maria Angélica da Silva, professora da FAU/UFAL. Sobre a parte do projeto do acesso de autoria de Paulo Braga, eu não tenho conhecimento, mas talvez o Victor Brasil, que fez um comentário acima, possa contribuir. Abraços

  3. gaio says :

    Segundo um prof. da UFAL, a demolição do Alagoinhas afetaria toda aquela região. Com a sua retirada, a dinâmica do mar iria erodir aquela região e alcançar, invariavelmente os prédios. Ainda segundo ele, isso foi informado quando os moradores daqueles prédios reclamavam sobre o mau cheiro da água acumulada às margens do Alagoinhas. Ou seja, pelos moradores daquela região, o clube já teria ido abaixo há muito tempo, mas como ninguém quer perder seus apartamentos caríssimos, aguenta o mau cheiro que se sucede.
    Pra complementar, o mesmo prof. disse que se todo o projeto do clube tivesse sido sob pilares, a água não teria ficado represada e o impacto da mudança das marés (que hoje em dia já se consolidou) não teria ocorrido.

    Em relação ao dito no texto, é realmente uma vergonha que nossa cidade não preze pela construção de uma identidade histórica, através da valorização de estruturas do imaginário, bem como do próprio incentivo a atividades dinâmicas cotidianas.

    • Vanine Tips says :

      Olá Gaio, obrigada pelos comentários. A questão ambiental deste empreendimento é outro viés que proporciona novos debates, além das discussões patrimoniais levantadas no texto. Penso que tecnicamente já existem soluções para garantir a saúde do prédio e de seu entorno, soluções estas que um projeto de reuso deve considerar.

    • Rose Francino says :

      Quem seria esse professor?

  4. Alexandre Toledo says :

    Vanine, legal a reflexão sobre o Alagoinha. Apesar de integrar a paisagem da orla desde os anos 60, o caráter privado do empreendimento, põe em dúvida seu caráter público. As questões ambientais foram, aparentemente contornadas, pois constatou-se que a demolição dos pilares poderia trazer mais danos do que benefícios ao frágil ecossistema dos corais. Mas a pegunta é: como transformá-lo num espaço público?

    • Vanine Tips says :

      Obrigada Alexandre. É verdade, a discussão sobre o caráter púplico/privado de um bem patrimonial traz ainda muitas inquietações. Para além da questão de direito de posse da edificação, penso que com a decisão de um projeto de reuso do lugar, este deveria antes de tudo passar por uma consulta à população através de fóruns e audiências públicas, além do próprio projeto poder ser objeto de concurso público. Seria uma das formas de a sociedade maceioense sentir-se parte do processo, além de apropriar-se de seu patrimônio.

  5. Victor Brasil says :

    Como neto de um dos sócios-fundadores e do ainda cômodoro, gostaria de parabenizar pelo texto. Morar numa cidade que não preza por sua riqueza é triste, e mais triste ver um cartão postal se tornar o que é hoje. Também gostaria de lembrar que faz parte do projeto arquitetônico também um projeto em nome de Paulo Braga, onde fez a entrada do Clube em formato de um Navio.

    • Vanine Tips says :

      Obrigada Victor. Maceió tem ainda um longo caminho de aprendizado quanto à preservação de seu patrimônio. Seu comentário é também muito importante por agregar ao texto novas informações. Lembro sim da entrada do clube, que foi anexa ao projeto original posteriormente, e não tinha conhecimento da autoria. Obrigada.

    • Rose Francino says :

      Você poderia me dar mais dados sobre Paulo Braga? Sobre o projeto?

  6. ivanmarreta says :

    Gostaria que fosse feita uma correção.. o nome da minha avó é Edy Marrêta, e não “Eddy”, muito obrigado, gostei muito do texto.

  7. ivanmarreta says :

    Gostaria que fosse feita uma correção.. o nome da minha avó é Edy Marrêta, e não “Eddy”, muito obrigado, gostei muito do texto, faz refletir.

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