Quantos boeings em nossas ruas…

A queda do Boeing da Gol, em setembro de 2006, que matou 154 pessoas no Mato Grosso chocou a população brasileira. O desastre foi divulgado por toda a imprensa e já nos primeiros momentos após o acidente surgiu o debate acerca de suas causas. Especialistas de diversas áreas foram convidados à televisão para opinarem sobre o assunto, o clima de comoção era generalizado. Em 2007, um avião da TAM derrapou na pista do Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, e se chocou contra um prédio de carga e descarga da própria companhia aérea. Resultado: 186 pessoas mortas no maior acidente aéreo da história deste país.

Nestas duas tragédias, ocorridas num período de menos de um ano, morreram 340 pessoas. Dentre elas, muitos pais e mães de família, crianças, jovens cheios de sonhos e planos, pessoas com compromissos a honrar, abraços a receber… Vidas interrompidas bruscamente, famílias desestabilizadas, dor, sofrimento, lágrimas… Entre escombros e cinzas, só restou a saudade de familiares e amigos.

Se há algo de positivo nestes incidentes, é que o grande debate montado em torno do assunto e as investigações que se levaram a cabo em busca de respostas às perguntas que surgiram, desencadearam um processo de reflexão sobre o sistema de segurança do transporte aéreo. O mínimo que se pode esperar como resposta a tragédias é investigar as suas causas e estudar formas de evitar que elas voltem a acontecer ou de reduzir os seus impactos.

Um acidente fatal de avião é um evento muito impactante porque, muitas vezes, leva várias pessoas à morte de uma só vez. Nas vias terrestres, onde trafegam os veículos automotores, não motorizados e pedestres, no entanto, morrem anualmente muito mais pessoas do que em acidentes de transportes aéreos, isto sem contar a quantidade absurda de feridos, o que, paradoxalmente, não parece chamar a atenção da sociedade de maneira proporcional. É sabido, porém, que uma torneira gotejando por vários dias provoca um desperdício muito maior em relação à outra que jorra água por 1 minuto.

Em 2010, somente no estado de Alagoas, morreram mais de 788[1] pessoas, o que representa um aumento de 30,7% em relação aos números de 2009 e mais que o dobro do número de mortos nas duas maiores tragédias em acidentes com aviões da história do Brasil. Números a parte, a tragédia da violência no trânsito brasileiro é diferente porque é contínua, como uma ferida aberta que não cicatriza nunca, e segue crescendo, configurando um cenário que fica cada vez mais problemático e assustador. Nos últimos quatro anos o número de acidentes com vítimas cresceu algo em torno de 33% no Estado. No Brasil, o cenário não é diferente.

No mês passado, foi lançado o “Pacto Nacional pela Redução de Acidentes de Trânsito”, do Governo Federal, que visa atender a resolução da ONU que estabelece a década de 2011 a 2020 como a “Década de Ações para a Segurança no Trânsito”. É preciso aproveitar este momento para que estado e sociedade tomem atitudes imediatas e firmes, com a urgência imperativa frente a situações que extrapolam limites e desafiam a humanidade. Chega de acidentes, chega de vítimas, chega de lágrimas e dor em nossas vias de tráfego! A mobilidade é um direito humano, não uma sentença de morte.


[1] Segundo dados do Instituto Médico Legal do estado de Alagoas.

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About Renan Silva

Renan Silva - Arquiteto / Urbanista - Mestre em Planejamento para do Desenvolvimento Local - Especialista em mobilidade urbana - 31 anos - Time do coração: CRB

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