A relação da qualidade dos espaços públicos e o trânsito e a necessidade de investimentos nestes espaços

A definição mais objetiva para espaço público seria: tudo aquilo que não é privado. Isso inclui, portanto, as praças, parques, ruas, calçadas e outros ambientes nos quais as pessoas podem encontrar-se e conviver com desconhecidos, estabelecendo relações sociais. Tradicionalmente os espaços públicos são espaços de construção e expressão social. Na Grécia antiga, berço do conceito de democracia, a ágora era um espaço aberto, cercado de edifícios públicos importantes, que tinha a função de reunir os cidadãos para debater e decidir sobre os assuntos de interesse coletivo. A função da ágora foi passada historicamente às praças e a outros espaços públicos, palcos do encontro social, de manifestações e reivindicações.

A heterogeneidade, acessibilidade, liberdade, dinamismo, capacidade de integração, qualidade do espaço construído e elementos simbólicos dos espaços públicos definem a sua qualidade. A mescla dos elementos tangíveis e intangíveis envolvidos em sua dinâmica substancia os seus atributos, que estão diretamente relacionados ao seu uso: bons espaços tendem a atrair as pessoas e espaços ruins, ao contrário, tendem a repeli-las. Desta forma, quanto mais abandonado é o espaço público, mais ele tende a sê-lo. Esta dinâmica implica em uma série de impactos no espaço urbano.

Imaginem uma praça que as pessoas sentem prazer em frequentar. Ela possui brinquedos para as crianças, bancos confortáveis e sombreados por árvores frondosas, quadras esportivas que os jovens utilizam para passar o seu tempo livre com os amigos, com um anfiteatro em que grupos de teatro e dança costumam fazer apresentações abertas ao público. Uma praça assim certamente irá atrair uma diversidade grande de pessoas o que, por sua vez, agrega qualidade ao espaço, já que potencializa as oportunidades de interação social.

Um espaço como este causa impactos em uma série de esferas da sociedade:

1. Sociabilidade: cria espaços de lazer e entretenimento, assim como oportunidades de interação e integração social. O cidadão pode compartilhar experiências e aprender com o próximo, conhecer pessoas e culturas novas, desfrutar de um bom espaço para o lazer e entretenimento. Leva as pessoas para fora de suas casas, das restrições de seus muros, grades e cercas elétricas. Faz com que as pessoas vivam a cidade;

2. Meio ambiente: cria oportunidades de interação com a natureza;

3. Economia: gera oportunidades de negócios, o que faz surgir pessoas para oferecer produtos e serviços, como vendedores ambulantes de lanches, bancas de revistas e brinquedotecas dentro do próprio espaço, assim como no entorno, beneficiado pelo dinamismo criado pelo espaço;

4. Segurança pública: cria um universo de vigilância natural por parte dos frequentadores do espaço, dispensando ou diminuindo a necessidade de representatividade do estado para controlar a ordem pública;

5. Trânsito: a segurança supracitada oferece às pessoas a tranquilidade para deixarem seus veículos automotores em casa. Além disso, a oferta de espaços públicos de qualidade de forma descentralizada na cidade reduz os deslocamentos evitáveis das pessoas que, pela falta de espaços públicos perto de suas casas, são obrigadas a deslocar-se até pontos distantes.


A praça cercada, sem equipamentos, mal conservada e pouco frequentada, além de não promover atrativos, configura um espaço onde as pessoas se sentem vulneráveis em relação à violência urbana. Por outro lado a praça aberta, dotada de elementos que lhe conferem qualidade e bem frequentada atrai as pessoas. Outros equipamentos urbanos associados a ela, como ciclovias, incentivam as pessoas a caminharem pela cidade e a utilizar meios de transporte não motorizados.

Estes aspectos se referem ao exemplo de uma praça, mas poderiam ser aplicados a outros espaços como as ruas e calçadas, que representam a maior parte dos espaços públicos e são o primeiro contato das pessoas com o público ao sair de suas casas. Ruas iluminadas e movimentadas tendem a ser menos perigosas do que ruas escuras e vazias. A iluminação pública agrega qualidade às ruas e calçadas e, consequentemente, ao espaço público.

Uma cidade é identificada pelos seus espaços de uso coletivo, assim investir na qualidade destes agrega valor à própria cidade e a todos os elementos envolvidos em sua dinâmica. Portanto, investir em infraestrutura urbana (fornecimento de água, luz, serviço de coleta de lixo, esgotamento sanitário etc.), acessibilidade, mobilidade, mescla de classes sociais e de usos (comercial e residencial, por ex.), arborização, dinamismo econômico, equipamentos públicos para manifestações culturais, prática de esportes e lazer, enfim, em elementos que configuram uma cidade melhor, mais atrativa e com maior potencial de desenvolvimento proporciona mais qualidade de vida à população, objetivo principal de toda administração pública.

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About Renan Silva

Renan Silva - Arquiteto / Urbanista - Mestre em Planejamento para do Desenvolvimento Local - Especialista em mobilidade urbana - 31 anos - Time do coração: CRB

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