Planejamento urbano em Maceió

Neste post faço algumas considerações acerca do que foi abordado na entrevista, com os arquitetos e urbanistas Geraldo Magela (também professor e pesquisador da UFAL) e Mário Aloísio, veiculada no dia 22/07 pelo programa Pajuçara 360. Quero deixar claro que tenho grande respeito por ambos os profissionais em questão, o primeiro com larga experiência acadêmica e meu ex-professor e o segundo, um dos ícones da arquitetura brasileira, com projetos de visibilidade internacional como o aeroporto Zumbi dos Palmares[1].

As considerações que faço expressam a minha opinião a respeito dos temas abordados sem querer construir verdades absolutas, nem sobrepor a minha opinião sobre a dos entrevistados. A ideia é simplesmente apresentar outro ponto de vista.

Clique AQUI para ver a entrevista e siga lendo.

A entrevista começa com o arquiteto Mário Aloisio falando e logo é levantada a questão do planejamento da cidade de Maceió.

Afinal, ele existe ou não existe?

Concordo em parte com o professor Geraldo Magela. Há sim (algum) planejamento, acontece que muitos dos planos elaborados nunca saem do papel, mas esta não é uma realidade exclusiva de nossa cidade. Há, no entanto, estudos imprescindíveis para o planejamento da cidade de Maceió que nunca foram realizados ou estão desatualizados, como os que subsidiam o planejamento do trânsito e transporte de Maceió, tema destacado na entrevista. Pesquisas de origem e destino e de sobe e desce, por exemplo, seriam fundamentais para subsidiar a elaboração do edital de licitação dos transportes públicos, que será publicado nos próximos dias. O plano diretor de transportes urbanos[2], por sua vez, previsto no Plano diretor, e o Plano de gestão integrada da orla, idealizado em 2001 pelo Governo Federal, nunca vieram à tona.

Geraldo argumenta que falta ao poder público articular as ações dos empreendedores privados que realmente constroem a cidade. “… os empresários não são mal intencionados e querem fazer uma bela cidade”, defende ele.

Disto, eu discordo. É bem verdade que não imagino que um empresário possa ter a intenção de criar uma cidade “feia”, mas a paisagem urbana e ambiental não está, certamente, entre as prioridades dos investidores privados, talvez por falta de conhecimento de que a atividade econômica está diretamente ligada ao patrimônio histórico, ambiental, paisagístico e cultural de uma localidade, principalmente das cidades que têm o turismo como uma de suas principais atividades produtivas. Se estivessem, não teriam feito o lobby político que fizeram para conseguir a liberação para construir edifícios de até 20 andares no litoral norte, mesmo isto representando um significativo impacto na paisagem urbana e no meio ambiente local, dentre outros impactos, por exemplo.

Para promover espaços públicos de qualidade faltaria ação arquitetônica e urbanística, segundo o professor.

Então cabe aqui outra pergunta: onde está a universidade e o diálogo fundamental com o poder público no sentido de promover ações em parceria para beneficiar a cidade e os cidadãos?

Na entrevista, foi destacada a importância do Vale do Reginaldo como eixo estruturador de transporte de massas de Maceió, mas o transporte público coletivo tem que ser privilegiado em todo espaço de circulação da cidade e não apenas em eixos estruturais de forma desfragmentada em relação ao restante da malha viária.

Os comentários dos entrevistados acerca da utilização das bicicletas também me chamaram muito a atenção. Ora, a bicicleta é um meio de transporte reservado aos lugares com clima frio? O clima é realmente um obstáculo para o uso da bicicleta? As pessoas deixam de usá-la no verão europeu, que em alguns lugares é mais quente que o nosso?

Definitivamente não.

A bicicleta não pode ser pensada isoladamente, ou seja, ela deve estar inserida em um sistema multimodal que possibilite que ela seja utilizada em trajetos de pequena e média distância, integrando-se a outros modais, como o ônibus ou o VLT.  Também é essencial a existência de uma infraestrutura que torne o modal viável nas cidades (ciclovias, espaços para guardar bicicletas com segurança, sistemas de compartilhamento de bicicletas, vestiários para funcionários em empresas e repartições públicas, escolas etc.).

E elas não podem, em hipótese alguma “andar em cima de calçadas, convivendo com pedestres sem problema nenhum”. A bicicleta é um meio de transporte, um veículo (não motorizado) e, como tal, deve trafegar pela via de tráfego, de preferência em ciclovias.

Sobre os espaços públicos, o professor Geraldo argumenta que a vitalidade deles depende da vitalidade social. Concordo, mas também depende de investimentos do poder público para entregar à população espaços públicos de qualidade que possam atrair e fomentar esta vitalidade. É papel do estado promover um cenário favorável ao desenvolvimento das potencialidades das pessoas e, consequentemente, do capital social concentrado em um determinado território.

Geraldo destaca a “grande orla” de Maceió como um grande parque. Um espaço democrático (de acordo com o entrevistador)[3] onde há investimentos públicos e onde “o sol está” (?).

O parque do Catolé, o Ibama, e o parque municipal poderiam e deveriam ser melhor utilizados. Estes espaços, localizados em região que não tem praia possuiriam uma imensa população ao redor que necessita de espaços de lazer e as bacias endorréicas do Tabuleiro seriam espaços com potencialidade para tornarem-se parques, defende o professor.

Sim, de acordo. A grande questão é: onde estão os investimentos públicos?

Onde o sol está?

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Para finalizar minhas considerações acerca da entrevista, destaco que este tipo de debate é extremamente importante para o desenvolvimento da cidade de Maceió e que o político (candidato nas eleições municipais deste ano, ou não) inteligente e com visão desenvolvimentista dedicará muita atenção ao planejamento urbano, tema que está em grande evidência nas discussões sobre desenvolvimento e sustentabilidade em todo o mundo.


[1] Mário Aloísio é o autor dos projetos das duas principais portas de entrada da capital alagoana: o aeroporto e a rodoviária

[2] Embora exista um PDTU de 1983, feito pelo GEIPOT, este precisaria ter sido atualizado.

[3] Trata-se de um espaço democrático se partirmos do ponto de vista que qualquer pessoa pode ter acesso a ele, no entanto, do ponto de vista prático, quem, ao fim e ao cabo, utiliza o espaço da orla citado na entrevista, senão as pessoas que moram próximas à praia e, sendo assim, uma pequena camada privilegiada da sociedade? Para que as pessoas tenham acesso a um determinado espaço é preciso possibilitar que elas possam chegar até ele. Grande parte da sociedade que mora a quilômetros de distancia da tal ‘grande orla” só tem acesso a este espaço aos domingos, quando pode se dar o “luxo” de aventurar-se em ônibus lotados e escassos para desfrutar da morada do sol.

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About Renan Silva

Renan Silva - Arquiteto / Urbanista - Mestre em Planejamento para do Desenvolvimento Local - Especialista em mobilidade urbana - 31 anos - Time do coração: CRB

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