O cidadão em Maceió anda com medo.

O cidadão em Maceió anda com medo.

Na verdade, andar é um verbo com sério risco de extinção na capital de Alagoas.

O perigo é onipresente no ar da cidade. Seja ele real ou percebido. É bem verdade que o espetáculo da mídia e as redes sociais ampliam a percepção da violência, mas é difícil encontrar alguém que não tenha sido vítima de algum crime direta ou indiretamente, ou que, pelo menos, não conheça alguém que o foi nos últimos tempos.

As ruas, calçadas e praças tornam-se um ambiente inóspito neste contexto e a tendência é que as pessoas o abandonem cada vez mais, configurando assim um lastimável ciclo vicioso: o espaço público é perigoso e as pessoas se afastem dele tornando-o ainda mais perigoso. A mera presença de pessoas nas ruas cria um processo de vigilância natural que diminui e percepção e o risco de violência. 

Estamos vivendo em uma cidade em que, ao sair à rua, a sensação é que é mais provável ouvir um “isso é um assalto!” do que um “boa noite”. As pessoas são vistas como uma ameaça, quando deveriam ser vistas como oportunidade. Oportunidade de encontro, de troca, de aprendizagem, de amizade, de amor…

Somos a capital com maior índice de homicídios do país e um dos estados mais críticos em violência do mundo.

Notícias sobre crimes e mortes estão se tornando banais.

Mortes de bandidos de rua são comemoradas: “bandido bom é bandido morto!”, mas os maiores crimes praticados pelos mais perigosos bandidos deste país, os de colarinho branco, que são os grandes responsáveis pela situação crítica que vive o país, seguem impunes, apadrinhados pelos diversos artifícios de leis que parecem ter sido criadas somente para os pobres.

A violência não é como a lei. Ela não escolhe cor, sexo ou classe social. Ela atinge a todos e, sendo assim, há de ser enfrentada também por todos, coletivamente.

No entanto, vivemos em uma sociedade acostumada a adotar soluções individuais para problemas coletivos. Se a saúde pública é ruim, há os planos de saúde. Se a educação pública é ruim, há as escolas particulares. Se a violência é alarmante, há muros e cercas elétricas, condomínios fechados e edifícios de apartamentos com segurança particular. E para os deslocamentos pela cidade, se o transporte público é ruim, há os carros e as motos. Isto para aqueles cujas condições financeiras permitem o acesso a estes elementos.

Acontece, meus caros, que o espaço público é inevitavelmente um espaço de todos. É espaço de convivência, de disputa e congregação social. Os casulos humanos criados artificialmente não passam de pseudo soluções individuais. A paz só pode ser vivenciada em sua plenitude se a sociedade lutar pelos elementos que a sustenta, como equidade social, oportunidade às pessoas, confiança no outro e qualidade de vida. Uma cidade que vivencie a paz há de ser uma cidade para todos.

Para que possamos ter uma cidade melhor precisamos discutir os problemas existentes. Por isso este grupo foi criado, para juntar pessoas que estejam dispostas a lutar por uma cidade melhor e mais segura. Lutar da forma como deve ser: no campo das ideias e das ações estratégicas, da organização social e reivindicação coletiva, do conhecimento e exigência de nossos direitos, recusando-se a empunhar armas e levantar a bandeira do olho por olho, dente por dente.

O primeiro passo é discutir com o poder público o problema e elaborar um programa de ações para a promoção da paz e recuperação do espaço público que está sendo dominado pelo medo. Vamos exigir uma audiência pública e ações imediatas do governo.

Não à barbárie! Sim à justiça social!

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About Renan Silva

Renan Silva - Arquiteto / Urbanista - Mestre em Planejamento para do Desenvolvimento Local - Especialista em mobilidade urbana - 31 anos - Time do coração: CRB

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