Mwany

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Nos próximos dias, o público terá a oportunidade de assistir o filme de Nivaldo Vasconcelos, Mwany, na 4ª Mostra Sururu de Cinema Alagoano, que acontecerá entre 06 e 09 de dezembro, na Praça Multieventos.

“É um filme sobre o sentimento de pertença, inclusive o de não pertencer.” Define e sinopse do belo filme, marcado pela força visual e espiritual da protagonista, Sónia André, e sua filha Thandy, pela narrativa cinematográfica inteligente e bem construída de Nivaldo e a fotografia fascinante de Alice.

Acredito que muita gente que estava presente na exibição de estréia identificou-se com Sónia. Não em suas particularidades, certamente, como em suas roupas peculiares, no seu jeito de falar, em sua cultura tão cheia de valores, muitos deles bem diferentes dos que alimenta a sociedade brasileira, inclusive. Refiro-me ao que o filme trata em sua essência: a identidade e o pertencimento.

Identidade que surge de um processo de construção de significados baseados em atributos culturais. Segundo o sociólogo Manuel Castells, a forma mais imediata de autorreconhecimento é o território. Não é a toa que o “de onde viemos” é sempre um elemento presente na identificação daquilo que somos.

Sónia diz que sair de seu país foi fundamental para que ela se reconhecesse moçambicana. E é neste ponto que eu penso que muita gente se identificou, principalmente aqueles que tiveram a rica oportunidade de estarem fora do Brasil por algum tempo. O distanciamento evidencia elementos que permanecem perdidos na insipidez do cotidiano.

Em um ambiente totalmente diverso de sua terra natal, Sónia demonstra uma preocupação em manter seus valores e transmití-los para sua filha. Ela ensina sua língua para Thandy, usa as capulanas coloridas e o Mussiro (máscara facial). Sónia tem orgulho de suas raízes e se preocupa em criar Thandy distante da cultura moçambicana. E ao Assistirmos Mwany, acabamos olhando para nós mesmos, para a nossa cidade, à procura da nossa própria tradição, dos elementos que participam da construção da nossa identidade, do nosso eu. Talvez com esse distanciamento, tais elementos, fiquem mesmo mais evidentes e aguçados na memória de Sónia.  Longe da pátria, é preciso fazer um esforço para que os valores não se dissolvam no ar e caiam no esquecimento.

Sentir-se parte de uma tradição, nos garante uma segurança existencial, ontológica, e sinto que isso falta nas grandes metrópoles, nas sociedade globalizadas, onde grande parte das cidades parecem ter dificuldades de mostrar a sua marca, o seu diferencial. Será que a nossa tradição resta escondida nas pequenas comunidades e povoados? Ou será que a nossa cultura agora é pop, e só nos restou lanchar um BigMag com Coca-Cola, vestindo jeans, sob um céu de concreto e vidro?  Falar deste modo, pode soar demasiadamente generalista, mas, é de fato um convite à reflexão sobre o que nos torna um povo, quais são as nossas raízes e onde mora o nosso afeto?

Falou-se, no debate após o filme, que Sónia chamava muita atenção da sociedade alagoana, sobretudo quando saía às ruas com seu Mussiro. O estranhamento se deve ao fato de que não se trata de uma imagem presente no limitado repertório de imagens presentes na noção de diversidade cultural da sociedade alagoana. O interessante é que tal estranhamento é o próprio “remédio” contra o preconceito.

Embora o Brasil seja formado por uma rica mescla de etnias, salvo nas megalópoles, como São Paulo, por exemplo, não estamos muito acostumados a conviver com pessoas de outros países e culturas. E, neste sentido, a Universidade dá uma grande contribuição, pois ao abrir as suas portas para estudantes de outras nacionalidades, ela propicia a abertura de portas que nos leva para fora da caverna platônica, possibilitando que vejamos além das sombras e aprendamos a conviver com as diferenças.

A dificuldade de conviver com elas, as diferenças, inclusive, primando pelo respeito ao próximo, é a causa fundamental de quase todos os conflitos, armados ou não, presentes na história da humanidade.

Assistam Mwany!

PS. Texto escrito coletivamente pelos autores do blog

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About Renan Silva

Renan Silva - Arquiteto / Urbanista - Mestre em Planejamento para do Desenvolvimento Local - Especialista em mobilidade urbana - 31 anos - Time do coração: CRB

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